Mudando realidades
Como psicoterapeuta, ouvi de muitos pacientes nesse tempo de pandemia sobre os desafios e desafetos vivenciados pela rotina imposta. Vivíamos o nosso “normal” até que, de repente, um tsunami de incertezas passa a fazer parte de nosso dia a dia e se torna “o novo normal”. Como diz a letra da música “Como uma onda” de Lulu Santos: “nada do que foi será do jeito que já foi um dia”.
Tenho pensado o quanto essa experiência requereu um olhar para dentro – e incluso a mim mesma nesse processo. Os desafios aumentaram, especialmente aqueles relacionados à gestão emocional. Incertezas sempre existiram, mas de alguma forma, passam a ser “novas” incertezas, e com elas, um mar agitado de emoções que vai nos revelar o quanto somos bons marinheiros para navegar em mares agitados.
Interessante notar o paradoxo atual: cada vez mais sem barreiras, num contexto altamente intercambiável no que tange ao acesso às informações, ainda permanecemos distantes de nós mesmos. O cuidado com a saúde emocional, especialmente no que diz respeito aos aspectos que nos conferem autoconhecimento para gerir nossa vida com autonomia, ainda parece estar num modo “passageiro” – mais reação e menos ação. “A necessidade de uma resposta nova nos leva a melhoria, mudanças, necessidade que me leva a ir além. Zona de conforto, nesse cenário, é o que mais prejudica, mas o que mais queremos” – Leandro Karnal.
Agora mais que nunca, diante de uma situação de crise que traz por si só, rupturas e rearranjos, o que vamos levar para seguir nossa viagem e o que ficará para trás? Tanto no mundo dos negócios quanto na vida pessoal, vez e outra precisamos parar e redefinir as rotas – isso é estratégia. O que funcionava antes já talvez não funciona mais – talvez não da mesma forma. Os processos de mudança nos levam a deixar para trás aquilo que pode ter sido útil mas não me cabe mais.
Dentre algumas competências essenciais para o agora – e digo agora e não futuro – estão a resiliência, gestão emocional, autonomia, adaptabilidade e (interesse por) aprendizagem. Mais que nunca “Conhece a ti mesmo” passa a ser o primeiro passo para reavaliar nosso projeto de vida. O que me agrega ou não? O que me sufoca? Onde há vida em mim? Quais são as opções? Quais as atitudes que me ajudam a lidar de forma mais alinhada ao que espero do futuro? Onde posso investir e deslocar minhas forças e recursos? O que preciso preservar?
Viver de modo “saudável” envolve alinhamento aos propósitos pessoais, seja em qual âmbito de nossa existência for. Isso para não reagir e deixar as coisas acontecem pela nossa própria inércia; mas assumir o eixo que me permite ir em busca do que acredito: responsabilização pessoal ou, como prefiro, intencionalidade. E isso começa no agora, em cada pequena decisão que tomamos. Ao acordar, quando escolho – e reforço – escolho, diariamente como quero viver aquele dia – apesar de mim mesmo, apesar dos meus “quereres” e apesar de tudo mais que não consigo controlar. Essa é a estratégia do momento.
Não se trata de um compromisso rígido e irrealizável com os acertos, a felicidade e a perfeição. Dias difíceis existem e falhas também. O desafio que trago para reflexão é sobre a perspectiva que damos aos erros, dificuldades e incertezas inerentes à existência humana, e as constantes mudanças que me são apresentadas a cada fase. É um convite para fazer as pazes com essa forma de existir integrando-as como parte natural da vida, que nos convida continuamente a (re) avaliar nosso modus operandi.
Parafraseando Leandro Karnal “Não existe mais um mundo formado, mas formando”. E nós, como estamos dispostos a seguir nesse processo contínuo e gradual de “formação”? Sem dor não existimos, a dor me dá medo e o medo me faz ser prudente. Mas também é uma (boa) advertência de que está saindo da zona de conforto e indo além.
Ainda segundo o escritor e palestrante, O que muda uma realidade é ação. Seguir e agir mais rápido que os debates que se desdobram da realidade atual. Desinstalar situações convencionais como um catalizador para aumenta a ação, como um fermento no calor. É abrir mão dos “confortos promovidos pelo incômodo”.
Escrito por Cassia Miertschink. Inspirado pelas contribuições do Curso “Competências Essenciais” promovido pela PUC, a partir da fala de Leandro Karnal.
